top of page
Buscar

O poeta como resíduo em Manoel de Barros

  • Foto do escritor: Vinicius Mattos
    Vinicius Mattos
  • 4 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 5 de nov. de 2025


Poemas Concebidos sem Pecado (1937) é a primeira obra publicada pelo poeta brasileiro Manoel de Barros. O livro parece acompanhar a trajetória de vida do próprio jovem escritor, investigando o que torna alguém um poeta e o lugar do poeta no mundo.

Como num romance de formação, os primeiro poemas nos introduzem à obra através de uma ironia pueril, passando por um mosaico de personagens, fragmentos de paisagens e um tom surrealista e lírico, até culminar no ardor da sexualidade e da criação artística.

O universo manoelino nos convida a adentrar um mundo de inversões, onde o razoável é rejeitado e aquilo que é rejeitado pelas pessoas de bom senso se torna a maior preciosidade da poesia.

A segunda seção do livro, Postais da Cidade, abre com o poema O Escrínio, onde temos um excelente exemplo dessa inversão:


Um poeta municipal já me chamara a cidade de escrínio.


Que àquele tempo encabulava muito porque eu não sabia o seu significado direito.


Soava como escárnio.


Hoje eu sei que escrínio é coisa relacionada com joia, cofre de bugigangas...


Por aí assim.


Porém a cidade era em cima de uma pedra branca enorme


E o rio passava lá embaixo com piranhas camalotes pescadores e lanchas carregadas de couros vacuns fedidos.


Primeiro vinha a Rua do Porto: sobrados remontados na ladeira, flamboyants, armazéns de secos e molhados e mil turcos babaruches nas portas comendo sementes de abóbora...


Depois, subindo a ladeira, vinha a cidade propriamente dita, com a estátua de Antônio Maria Coelho, herói da Guerra do Paraguai, cheia de besouros na orelha E mais o Cinema Excelsior onde levavam um filme de Tom Mix 35 vezes por mês.


E tudo mais.


Escrínio entretanto era a Negra Margarida Boa que nem mulher de santo casto:


Nhanhá mijava na rede porque brincou com fogo de dia


— Mijo de véia não disaperta nosso amor, né benzinho?


— Yes!


Um dia Nhanhá Gertrudes fazia bolo de arroz.


Negra Margarida socava pilão.


E eu nem sei o que fazia mesmo.


Veio um negro risonho e disse sem perder o riso:


— Vãobora comigo, negra?


E levou Margarida enganchada no dedo para São Saruê.


Daí eu fiquei naquele casarão que tinha noites de medo.


Nhanhá sonhava bobagens que eu fugi de casa pra ser chalaneiro no Porto de Corumbá!


O Mijo de Nhanhá sentia, no pingar, um vazio inédito e fazia uma ladoinha boa no mosaico...


Desse tempo adquiri a mania de mirar-me no espelho das águas...



É escrínio, não escárnio. Essa brincadeira do poeta dá o tom irônico do poema, que logo em seguida complementa: escrínio é coisa relacionada a joia e bugiganga, mas joias ( objetos de muito valor) são o oposto de bugigangas (objetos de pouco valor ou valor relativo).

E o poema segue nesse entrecruzamento entre joias e bugigangas, revelando que a cidade está em cima de uma pedra branca enorme, porém fede a couro. Nos mostra seus monumentos, seu comércio, o cinema que passava o mesmo filme dezenas de vezes.

Em meio a tudo isso, o que é valioso, escrínio, para o rapaz é a Negra Margarida. Como contraste, a imagem que segue é a de Nhanhá ("Iaiá" ou "nhanhá" é uma forma de tratamento de senhora dado pelos escravos às meninas da casa grande, remete a "sinhá") mijando na rede porque, segundo a crença popular, "brincou com fogo".

Quando Margarida parte com um negro risonho, o eu lírico admite seu medo de ficar no casarão. O medo também atinge Nhanhá, que passou a sonhar com a partida do neto para Corumbá (cidade onde Manoel de Barros morou).

Então o poema faz sua inversão mais estranha ao bom senso: "O mijo de Nhanhá sentia, no pingar, um vazio inédito". O dejeto ganha agência, torna-se o sujeito que sente.

Em seguida, um novo contraste irônico: "...e fazia uma lagoinha boa no mosaico..." A poça se forma sobre um piso que é, ele mesmo, um mosaico, uma metáfora da própria construção fragmentada do poema.

Por fim, o eu lírico admite sua epifania: "Desse tempo adquiri a mania de mirar-me no espelho das águas...". Seria este "espelho das águas" a própria "lagoinha boa" no chão da casa?

A resposta parece ser a confirmação de que o poeta, para encontrar sua verdadeira face, deve se ajoelhar e procurar nos resíduos do mundo a sua matéria poética mais essencial e transformadora.


 
 
 

Comentários


Entre em Contato Conosco

Marque uma consulta via WhatsApp

(16)992942622

     

    © 2035 by Vinícius de Mattos Psicanalista. Powered and secured by Wix 

    bottom of page