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O coração ansioso e o espírito moderno em um poema de T. S. Eliot

  • Foto do escritor: Vinicius Mattos
    Vinicius Mattos
  • 14 de nov. de 2025
  • 5 min de leitura

O poema "A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock" (1915) marcou a primeira grande publicação do poeta americano T. S. Eliot. Ele o escreveu entre 1910 e 1911, com apenas 22 anos. Apesar da pouca idade, a maturidade de sua poesia impressiona. Ironicamente, a "canção de amor" deste poema trata de um indivíduo incapaz de se entregar ao amor. Na verdade, essa canção se revela uma canção de ansiedade.


O ritmo do poema acompanha e mimetiza a ansiedade do personagem. Eliot alcança esse efeito ao quebrar as rimas logo nos primeiros versos: "Pois vamos lá, você e eu, / Quando a tarde no céu se estender / Como um doente eterizado numa mesa;". Os dois primeiros versos, na tradução de Caetano Galindo, sugerem um início rimado, com um tom quase infantil, como uma canção de brincadeira. Contudo, o ritmo é abruptamente quebrado no terceiro verso.


O terceiro verso funciona como um tropeço, um elemento deslocado que transforma completamente a imagem sugerida anteriormente. A tarde se estende como um doente deitado numa mesa, eterizado ou anestesiado. Uma imagem que poderia ser bela torna-se estranha e intrusiva. Essa é uma das primeiras manifestações da inovação do poema. Afinal, quem compararia o céu da tarde a um doente deitado numa mesa? Além disso, o poema nunca esclarece definitivamente quem é o "você" do primeiro verso, embora ofereça algumas pistas.


A atmosfera construída pelas imagens do poema é lúgubre: "De noites tensas em móteis baratos,/ Mesas reles, ostras ocas sobre os pratos: / Ruas que se emendam como arenga arrastada [...] A névoa amarela roça o dorso nas janelas, / Fumaça amarela roça a fuça nas janelas". Essa descrição se intercala com alusões ao meio social do eu lírico: "Vamos lá, nessa visita social. / Na sala as damas dão olá e alô, / O assunto agora é Michelangelo".


O poema também é eficaz ao provocar ansiedade no leitor, e não apenas ao expor a ansiedade do eu lírico: "E tempo de fato haverá / Para a fumaça amarela que flui pela rua, / Roçando o dorso nas janelas; / Tempo haverá, tempo haverá". As repetições sublinham a obsessão que cerca o constante adiamento da tomada de uma atitude, intercalando-se com imagens sexuais que envolvem o desejo do eu lírico. A repetição, a fragmentação e a falta de linearidade são, portanto, elementos estruturais cruciais.


Na mesma estrofe, a ideia de tempo prolongado é reforçada: "E tempo ainda para cem indecisões, / E uma centena de visões e revisões;". Em contraste com o tempo da procrastinação, surge o tempo do trabalho, que também estende o tempo, mas em oposição à inação: "E tempo para as obras e dias de braços / Que erguem e largam no seu colo a questão;". Em um único verso, surge um terceiro tipo de tempo: "Tempo haverá de assassinato e criação,". Este é o tempo que o eu lírico adia, o tempo da renovação prometida pela ação, mas que implica a morte de sua identidade atual. É a oposição clássica entre Chronos e Kairós.


As imagens de cenas sociais são retomadas: "De ver as outras caras, tendo preparado a sua; / [...] Depois, uma torrada com seu chá", juntamente com o misterioso "você": "Para você e para mim, tempo haverá". O poema, até o final, expõe cenas de julgamento e inadequação social que causam profundo desconforto. Quem nunca se sentiu julgado ou inadequado em público?


Prufrock vivencia constrangimentos semelhantes ao se desesperar com comentários (talvez apenas imaginários) sobre sua calvície, seu envelhecimento e seu corpo, tudo inscrito nos olhares: "E já dei fé dos olhos, disso tudo – / Dos olhos que te cravam nessas frases frias". Esses olhares, ao mesmo tempo que o definem, também o "cravam" nesses dizeres, objetificando-o: "E estando frio, se vem um alfinete me cravar, / Esperneando, alfinetado para estudo".


O poema prossegue com as fantasias de Prufrock sobre seu corpo "minguado", divagações sobre o cheiro do lugar que frequenta e pedaços de corpos que o atraem. Por se tratar de uma canção de amor, este ponto é significativo: Prufrock nunca descreve detalhes de sua amada que vão além de atrativos sexuais. Ele ensaia falas e comentários para uma futura abordagem e, ao final, dialoga com a tradição, citando Lázaro, aludindo a João Batista, comparando-se a Hamlet e fazendo referências à Odisseia.


Todo esse processo de fantasias — desde a autodepreciação corporal e o planejamento da fala até o diálogo final com Homero — envolve um alto nível de dispêndio de energia para, no fim, não tomar uma atitude. Este é o paradoxo do indivíduo moderno: somos altamente intelectualizados, o que nos leva a gastar mais energia com o autoerotismo do planejamento do que com a ação. Como Prufrock afirma: "Medi a vida em colherinhas de café".


O tempo de Prufrock é o tempo do planejamento, da antecipação e da medição. Para ele, a vida é passível de ser medida; tudo deve ser compreendido. No entanto, sua vida se torna mais pobre como consequência, pois ele é incapaz de sair do seu autoerotismo. O pensamento, afinal, também é uma forma de o sujeito obter prazer ou desprazer. Desconsideramos esse fato no cotidiano, exceto quando nos masturbamos sem o auxílio de dispositivos externos. Nesse momento, lembramos da potência da imaginação sobre o nosso corpo.


Portanto, o tempo da procrastinação envolve um "trabalho" autoerótico dispendioso. Agir seria o mesmo que abrir mão desse autoerotismo. Seus cenários mentais garantem um prazer seguro, livre do risco que a ação envolve. Contudo, seu autoerotismo é pseudo-solitário, visto que sua fantasia inclui, além dos cenários sociais, um diálogo constante com nossa tradição cultural: "Não! Não sou príncipe Hamlet, nem quis ser".


No final do poema, Prufrock evoca uma imagem que ressoa da antiguidade aos dias atuais: o canto da sereia, do qual ele não se considera digno: "Com calças brancas de flanela, hei de caminhar na areia. / Ouvi cantar uma sereia. / Não conto que cantem por mim. / Eu as vi montar as ondas, rumo ao mar, / Cardando a cã das águas que se apruma / Quando o vento sopra a vaga, escuro e escuma. / Nas câmaras do mar por elas adornadas / Entre algas rubras e castanhas nós restamos: / Humanas vozes nos despertam, e afundamos".


Essa parte final condensa e repete o desenvolvimento do poema. O canto da sereia, do qual ele se julga indigno, é correlato ao amor que ele não realiza por estar ocupado demais medindo a própria vida. Esse amor representa a esperança de mudança e, ao mesmo tempo, sua angústia pelo desconhecido. O mar que o chama também é desconhecido, mas ele se vê recusando ao ser despertado pelas vozes humanas. Assim, o poema termina como começa, com Prufrock se afundando em vozes humanas. Nada deve diminuir o prazer de ler este poema de potência universal que, no entanto, já nasceu inumano.

 
 
 

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